segunda-feira, 31 de março de 2014

Participação Espacial.

"porque dois é um
é um número, êh ôh..."
(Novos Baianos) 
com Buddah

Os poetas escrevem muito sobre amor... 
Será que lhes sobra tempo de amar?
sobre o que fala o amor?
os poetas falam de todas as coisas que não sabemos
sentem tudo o que mentem
mentem o que sentem
ou mentem o que penso que sinto?
do que fala o amor, senão
os poetas em sua poesia?
nada que Camões ou Clarice ou Cecília já não tenham dito mais e melhor... 
São duas pessoas sozinhas 
que se fingem fazer companhia.
são dois em um, e nesse um:
o abismo entre os outros
ser um é ser outro ou nada ser?
é perder o chão e estar desatento?
é perder no peito do outro seu leito?
é gozar o gozo do outro
pensando que o outro é si mesmo?
Lidar com o outro
Falar do outro
Escrever o outro
- 'nós sozinhos somos multidão'.
O poeta quer mesmo falar de amor?
Será que o poeta não quer só sentir a dor
pra ter sobre o que desabafar?
E o que me dizem sobre realidade?
A gente engole sem sequer pestanejar... 
O que é realidade?
sentimos dor que não são dores
vivemos o suicidio desenfrado a cada dia
engolimos a fumaça, a cachaça, a vida
engolimos a brisa que não vem
a vinda nunca ida, 
e dessa coisa toda, 
nada resta
que andar a toa,
sobre amor, sexo, liberdade e poesia?
O poeta que é poeta deve falar das entrelinhas?
Deve chorar noites sozinhas?
Deve ver cor na cidade cinza?
Deve cantar pra espantar?
Deve amar, deve amar...
O poeta fala de amor pra sufocar o ego
de escrever sobre o que tá estampado.
O poeta quer café e cigarros.
O poeta não sabe não saber - ai inventa
Ai atenta aos detalhes sórdidos do dia-a-dia
Dessa eterna falsa folia
- dia de reis, quarta de cinzas
o poeta, a bohemia.
essa cidade, as vezes colorida
navegando o infinito
pela fumaça do café a dançar com cigarro
pela erva fina: o ultimo trago
e te trago aos meus braços
acompanhado do livro
acompanhado das linhas
essa vida sem mágoa
essa marca do aço
talhado de noite
curado de dia
essa coisa de vida
seria bem dificil
sem poesia.

31/março/14

sexta-feira, 21 de março de 2014

Mesa de amigos.

"Põe os pratos no chão e o chão ta posto."

Pôs a mesa a segundos atrás.
Achou simplérrimo, pensou que não estava bom
o suficiente pra receber os amigos.
Mas amigo que é amigo, senta no chão
Amigo que é amigo passa o café,
se quiser.
Amigo que é amigo limpa a casa
lava o quintal.
Amigo que é amigo não se importa 
de beber café ou cachaça
e comer poesia
crua, assada ou cozida.
A mesa tem pratos de sobra
e a luz irradia pela janela da cozinha.
A mesa tem lugares 
fora da mesa.
A mesa foi posta fora de casa
na calçada pra todo mundo chegar
Sendo amigo ou não
Sendo gato ou cão
Sendo bem vindo ou indo.
Amigo que é amigo delicia-se de companhia
O dinheiro da folia 
arrecada-se da chuva
Faz dança e acrobacia
pra pescar pessoas sem anzol.

Porque a mesa é simplérrima.
Serve-se versos.
Mas amigos comem esses versos a colheradas cheias
E ela sorri pra nunca mais
deixar de servir. 

21/03/2014

terça-feira, 18 de março de 2014

Crua.

"eu não sei fazer poesia, mas que se foda." 

noite passada eu conheci um poeta de rua
fazia ele poesia crua
andava sempre pra lá e pra cá
bebia cachaça
conhecia meu bar
recitava palavras
que não eram bonitas
mas eram banhadas
de cor e verdade
e dessa verdade
usava a idade
que o mundo rodava.
era mais velho que andar pra trás
ou andava-se pra frente 
antes mesmo dessa gente?
eu só sei que queria casar
o chamava de esposo antes da noite acabar.
porque a poesia dá dessas:
compromissos sem o noivo saber com quem.
porque poesia são rezas
desse nosso longo vai e trem.


18/03/2014

sexta-feira, 14 de março de 2014

Sai da Seca.

O bicho do armário, que todos os dias aparece quando vou me trocar, e joga os padrões de moda na minha face já trêmula de indignação.
O bicho do armário, que todos os dias aparece quando vou me alimentar, e joga as pobrezas de nada na minha expressão já esgotada de podridão.
O bicho do armário, que todos os dias aparece quando vou me lavar, e joga as pátrias de merda na minha cara já maltratada de "EVOLUÇÃO". 
Essa porra de padrão de pátrias pobres, que define essa moda de nada e de merda, que dá à minha face maltratada uma expressão trêmula de cara esgotada. 
O bicho do armário, 
Indignado.
Evoluído?
Podre. 

14/março/14