quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ai ai ai

São de salas diferentes.
Todos os dias o Mágico recebe a visita do Médico. Toda mágica tem um truque, e
o Mágico conta com uma medicação especial para seus eventos. A medicação vem
dentro de um potinho. E é um pó branco, que se cheirado da forma correta faz o
Mágico brilhar, dentro e fora do palco, no espelho, na cama e transforma todos
seus descansos na poltrona em choques da cadeira elétrica. Como ele consegue
fazer um momento de ócio tão esperado em uma tortura? Mas jura não ser
masoquista...
O Médico é fiel. Todos os
dias antes do metódico show, apresenta-se com o potinho na sala do Mágico.
‘Como vai o senhor hoje? Pronto pra mais um show? Empolgado? Elétrico?’, é o
que sempre pergunta antes de entregar o truque.
A mágica ocorre sempre
entre as 12 e 13h, exatas, de segunda a segunda, sem exceção. Sua platéia
também sempre presente, os mesmo rostos. Vez ou outra um rosto some e aparece
uma feição nova e nunca, sumiço ou surgimento, passam-se despercebidos. O show
de uma hora tem uma pequena pausa para o almoço, normalmente 15 minutos e
prossegue logo em seguida, no mesmo saguão para que não haja dispersão dos aplaudintes.
‘O Mágico brilha
interruptamente’, diz a eufórica platéia; ‘Olha como ele contorce a boca, mexe
com as mãos rapidamente, fala rapidamente, pisca rapidamente!’ Abstraindo os
senhores da portaria ( aqueles que sempre estão de mau humor e nunca, JAMAIS
saem da porta - para que não haja não pagantes no show), todos divertem-se
todas as tardes por aqueles intermináveis 60 minutos. É a hora do dia que eles
mais gostam. É a hora do dia que todas as salas se juntam. É a hora do dia que
o Médico faz seu papel e o Mágico encanta.
E todo fim de show,
sistematicamente o Mágico agradece ao seu público: ‘Até que minhas cadeiras de
balanço me matem no meu momento de ócio estarei aqui para que vocês não se
entediem na hora do almoço’.

Cenário:
Manicômio. Um
senhor vestido de branco: as mangas e gola da camisa cortadas e a calça suja. O
outro, jovem, vestido de terno preto e gravata vermelha. O primeiro acredita
ser Médico. O segundo acredita ser Mágico, viciado em cocaína. E o pó branco
era só porpurina.
Os únicos que não se
divertem com absurdos são os que olham de fora e acreditam ser loucura.

29-03-2012

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