quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Conto de uma noite de verão

Entrei na festa; entrei na dança.
Dancei, cantei, suei e quis beber. Fui ao bar e no meio do caminho vi a mesma mulher daquela tarde, a que provocou dúvidas e curiosidade. Ela escrevia, sozinha, sentada no balcão bebendo uma cerveja. Fui até lá e pedi uma gabriela - sou paratiense, eu peço pinga! Sentei no mesmo balcão e a olhei escrever... Era uma cena tão bonita, uma moça bonita, os gestos fáceis, brutos e delicados. Ela me olhou rapidamente, os olhos se encontraram por dois segundos e ela continuou escrevendo, como se eu não tivesse passado pelos seus olhos. Na verdade, talvez eu realmente não tivesse passado aos olhos dela, mas ela pousou nos meus, isso com certeza. Mudei de foco e observei meus amigos dançando: como somos felizes e nem ao menos percebemos! Não pude deixar de sorrir, porque a gente é tão vulnerável e fazemos coisas tão grandiosas... Viver é surreal. Sai do balcão e sentei na mesa dos fundos. Acendi um cigarro. Sozinha por apenas dois minutos, meu querido amigo logo me tira da mesa e me leva de volta ao salão - certo, VAMOS DANÇAR!
Chegando novamente ao balcão, a moça bonita do texto não estava mais... Minha cabeça focava-se nela, em como ela foi embora e eu perdi a chance de saber seu nome. E logo mais o foco transgredia para a moça longe, que eu amo e não sei como reagir.. Sabe, reagir quando se ama, ou se é por impulso ou não é. Simplismente foge-se a razão, eu lamento...
Mas a noite é uma criança, e crianças adoram brincar de esconde-esconde. Novamente ela entra na festa, e dessa vez, acompanhada. Senta no balcão, no mesmo banco, com o mesmo pedido. Mas nessa rodada ela sorri - que belo sorriso! Quero então outro cigarro... Mas cadê o isqueiro? Então, reparo que ela fuma e vou atrás de fogo - dela ou o suficiente para acender o vício, de cigarro ou mulher.
- Oi... Me empresta o isqueiro?
- O que?
- Fogo... Me empresta fogo pra acender o cigarro?!
(toda comunicação muito gesticulada, já que a música tava alta)
- Ah.. Aqui.
E me entrega o próprio cigarro.
- Obrigada... Garçon, uma caipirinha, por favor.
E sentei ao seu lado... Juro que tentei, mas ela me chamou mais atenção do que deveria. Ela e o amigo, aliás, que tentei decifrar como amigo ou namorado. Era amigo - ela realmente é gay. Não resisti e puxei conversa - contra meus valores ou contra meus instintos? Decidi ir contra meus valores, meu instinto falou mais alto.
- Desculpa interromper, mas eu vi que você estava escrevendo. Posso ler?
- Ah, é muito pessoal, me perdoa. Não posso deixar você ver.
- Ok, sem problemas. Como eu também escrevo, fiquei curiosa..
- É realmente muito pessoal, o papel é pequeno, minha letra tá muito pequena... Que seja, toma, pode ler.
- Ah! Obrigada.
(e eu li, em silêncio, duas vezes)
- Posso fazer uma pergunta mais pessoal que o texto?
- Pode.
- Você deixou alguém ou foi deixada...?
- Não! Não. Eu me baseio na forma de Fulano e Fulano escreverem. São ótimos, e eu os adimiro...
- Bom.. Você adimira bem. A proposito, qual seu nome?
- Luiza.. Me chamo Luiza.
- Luiza?! É o nome de uma personagem minha... Adoro esse nome, Luiza...
- Ah, meu Deus! Eu adoro essa música!!!
- Posso então tirar você pra dançar?
- Ah, não.. Eu não danço. Dançar é muita vergonha.
- Então, preciso perguntar: o que você tá fazendo aqui?
- É uma ótima pergunta. Eu não sei. Acho que vim observar...
- Você é de Paraty mesmo?
- Não. Sou. Na verdade sou de São Paulo, mas me considero de Paraty agora. Acredito que possa fazer a diferença nessa cidade. Ou em qualquer lugar que eu vá. Eu quero fazer a diferença nos lugares.
- Bom, essa noite você conseguiu isso.
Nesse momento, pela primeira vez ela me olha nos olhos e eu sei que é pra mim. Aceita beber da minha caipirinha. Ela me oferece um livro de pensamentos anonimos, nomeado pensadores livres, dizendo que é um dos que mais gosta. Eu li.
- Realmente é ótimo.. Posso também te recomendar um?
- Sim.. Claro!
- Ok. Não estou com ele aqui. Mas posso pegar seu telefone ou e-mail e te chamar para um café?
- Pode... Garçon, me trás um papel por favor? Pode anotar o número?
E me passou o telefone dela, pediu o meu e me entregou um folhetim.
- Esse é o lugar da cidade que eu mais gosto, ao lado do lugar que eu trabalho. Podemos ir lá?
- Claro. (então ela mexeu em sua bolsa) Frida?
- Sim!! Todos perguntam se sou eu, mas você reconheceu... Ela anda comigo onde quer que eu vá...
- Ela foi incrível. Além de adimirar muito bem anda bem acompanhada.. Uau.
- Vai me ligar?
- Você já vai?
- Sim... Preciso ir. Eu e meu irmãozão aqui (e apontou para sua companhia), que também me acompanha.
Então ele gentilmente, apresentou-se.
- Desculpe se interrompi algo de vocês...
- Não!! É só irmão mesmo.
- Bom, eu te vejo então?!
- Espero que sim.
- Foi um prazer conhece-los.
- Foi um prazer...
E assim ela rompeu porta afora. Eu, louca para sair atrás dela e beija-la. Mas me contive, como no começo da noite, dancei. Primeira parte havia concluido-se: telefone e nome estavam em mãos que, aliás, mostravam-se úmidas de nervoso, amassando o papelzinho que ela me ofereceu.



Nenhum comentário:

Postar um comentário